terça-feira, 7 de julho de 2015

A ideologia do gênero


Zarcillo Barbosa
Nesta semana, estados e municípios devem aprovar seus planos de educação, com metas e estratégias para o setor até 2024 (que pretensão!). A movimentação é grande na tentativa de inclusão, ou de exclusão, de itens relacionados à teoria do gênero. Aqui mesmo em Bauru, autoridades católicas, evangélicas e vereadores já procuraram a secretária de Educação para barrar “a coisa”. As pessoas aprendem desde o primário a pensar “gênero”, em masculino e feminino. Mas, desde o meu tempo a molecadinha do Grupo já falava em “tabela do meio”. A partir dos anos 1970, surgiu o conceito de que masculino e feminino são meras construções sociais. Independem do sexo biológico de cada indivíduo. Rousseau já dizia que ninguém nasce bom ou mau: a sociedade é que o transforma, ou forma. Quando o bebê nasce, se é menino, usa roupinhas azuis; se menina, cor-de-rosa. Os brinquedos são separados em bonecos do Batman para um e Barbie, para a outra. Com base na ideologia de gênero, “as diferenças genitais entre os seres humanos já não importariam culturalmente” (A Dialética do Sexo, Firestone). Homem e masculino poderiam significar tanto um corpo feminino como masculino; mulher e feminino tanto um corpo masculino como um feminino (Butler).

“Ideologia”, entendida como um conjunto de ideias, pensamentos, doutrinas ou visões de mundo, qualquer que seja seu motivo inspirador, exige discussão aberta. Inclusive sobre os estratagemas daqueles que desejam implantá-la sem dizer com todas as letras o que pretendem. Há boas intenções, como a de ensinar que as diferenças existem, de forma a evitar discriminações na escola contra coleguinhas efeminados ou masculinizados. Há a questão do machismo e da igualdade de oportunidades para ambos - diversos - os sexos. Devem e precisam ser discutidos. O problema mais sensível é o que trata dos limites entre as responsabilidades de família e escola na educação das crianças sobre temas morais e de valores. O sistema educacional, no Brasil, já amarga uma vergonhosa classificação nos indicadores internacionais. Não conseguimos ensinar matemática, português, biologia, com eficiência, e o Estado ainda quer se meter a educador sexual. Teríamos que priorizar conteúdos que preparem as crianças para a vida. Mas, tudo é sexo, defendia Freud. Se ele exagerou, temos, pelo menos, que convir que a sexualidade seja importante para a vida. Militantes dessa linha não querem só direitos e oportunidades iguais para homens e mulheres. Para alguns de seus expoentes, a própria divisão do mundo entre homens e mulheres é um mal a ser combatido. 

Para os sociólogos, uma ideologia se distingue de uma ciência porque não tem como fundamento uma metodologia exata capaz de comprovar essas ideias. O grupo que defende uma ideologia frequentemente tenta convencer outras pessoas a seguirem a mesma ideologia. Para Karl Marx, ela mascara a realidade. É um discurso ou ação que mascara um objeto, mostrando apenas a sua aparência e escondendo algo muito mais complexo. O velho Marx atacava dizendo que a ideologia da classe dominante tinha como objetivo manter os mais ricos no controle da sociedade. Entendo que se defende, na questão de gênero, não uma ideologia, mas uma visão de parte da sociedade mais livre e que acredita nessa forma de “avanço”. 

Há alguns anos o Ministério da Educação chegou a produzir um material didático sobre a sexualidade infantil, para ser distribuído nas escolas. O material foi rejeitado pela própria presidente Dilma, que se declarou “chocada”. Posteriormente, pretendeu-se tornar a Ideologia do Gênero conteúdo obrigatório no Plano Nacional de Educação, o PNE. O projeto foi rejeitado pelo Congresso Nacional. A bancada evangélica protestou sob o argumento de estarem querendo ensinar as crianças a se tornarem homossexuais. Deputados e senadores mantiveram apenas a regra simples e correta: “erradicação de todas as formas de discriminação”. 

Fica claro que a sociedade brasileira ainda não autoriza o Estado a exercer o papel de educador sexual de suas crianças. Principalmente num país onde, quem fala alto, ainda cria mulher sapiens, rola e mandioca, numa estranha simbologia fálica. 

O autor é jornalista e articulista do JC
fonte: http://www.jcnet.com.br/editorias_noticias.php?codigo=239362 acessado em 07/07/2015


Nenhum comentário:

Postar um comentário

ONG explica campanha feminista com Cruzeiro, que vira destaque internacional

Ação é tida como a primeira de uma sequência de etapas de conscientização   João Vítor Marques /Superesportes  ,  Tiago Mattar /Superes...