terça-feira, 31 de agosto de 2010

Mau hábito alimentar requer campanhas




A imagem do Brasil como um país desigual não se sustenta apenas em pesquisas acadêmicas.

Uma simples observação nas grandes cidades leva a esta constatação. Tem havido melhorias

na má distribuição da renda, mas a redução das desigualdades é um processo lento, pois ele

depende de fatores de longa maturação, como o nível de instrução da população.

Outra imagem clássica do Brasil é a de um país de famélicos. A subnutrição pátria está

retratada na literatura, na música, na poesia. Há obras-primas inspiradas no sofrimento do

nordestino em períodos de seca, por exemplo. Como não poderia deixar de ser, a fome

costuma ser tema explorado em certo discurso político.

A subnutrição, principalmente a infantil, ainda é problema, embora já tenha sido mais grave.

Neste ponto, porém, pesquisas e estudos têm sido menos pessimistas que políticos e artistas.

O candidato Luís Inácio Lula da Silva levantou, na campanha de 2002, a bandeira do combate

à fome. Sensato, aparece no documentário “Entreatos”, feito pelo cineasta João Sales sobre os

bastidores daquela campanha, dizendo-se cético quanto a estimativas de que haveria 50

milhões de brasileiros famélicos.

Considerava e tinha razão o número muito elevado, irreal.

Mas, como política é política, a demonstração de sensatez registrada no filme não o impediu de

converter o frustrado programa Fome Zero no Bolsa Família a consolidação sob um único nome

das linhas de assistência criadas no governo FH.

De grande apelo eleitoral, o Bolsa Família foi expandido até chegar a atingir aproximadamente

13 milhões de famílias ou, direta e indiretamente, cerca de 50 milhões de pessoas, aquele

mesmo número cabalístico que Lula rejeitara na campanha.

Na semana passada, o IBGE divulgou os resultados da mais recente Pesquisa de Orçamentos

Familiares (POF), referente a 2008-2009, com a consolidação do quadro revelado no

levantamento anterior: não existe mesmo no Brasil aquela fome que grupos políticos

denunciam em campanha. Na penúltima POF, o índice de pessoas de baixo peso era de 4%,

menos que a taxa de 5% aceita como normal pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O

problema no Brasil passou a ser outro: o avanço da obesidade, como ocorre em sociedades

afluentes. Segundo o IBGE, 49% dos brasileiros já se acham acima do peso. As crianças não

escampam, com 33,5% delas gordas e 14,3% obesas.

Coloca-se, então, mais uma tarefa para o poder público: campanhas para melhorar os hábitos

alimentares das pessoas e incentivos à prática de exercícios físicos, inclusive com intervenções

nas cidades para a criação de áreas de lazer, como indicou o médico Carlos Augusto Monteiro,

professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, em artigo publicado no GLOBO.

É possível que o bunker dirigista que funciona na Anvisa aproveite a última POF para reforçar

seus ataques à publicidade de alimentos industrializados para crianças. Será novo engano. Por

que não estabelecer novos parâmetros para a indústria no uso de sal, gordura e açúcar? É um

equívoco achar que a supressão da propaganda alterará hábitos de consumo.

Fonte: O Globo, Rio de Janeiro, 31 ago. 2010, Primeiro Caderno, p. 6.

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