sexta-feira, 23 de abril de 2010

Implante que libera hormonios é utilizado para outros fins

Implante que libera hormônios e funciona como método contraceptivo e de combate à TPM tem sido usado como forma de ganhar massa muscular

Especialistas, porém, ressaltam chances de efeitos colaterais
Silvia Pacheco Publicação: 23/04/2010 07:00 Atualização: 23/04/2010 09:03

Correio Braziliense

Um método de liberação de hormônios por meio de um implante subcutâneo, inicialmente desenvolvido como contraceptivo e aliado na luta contra a tensão pré-menstrual, começa a ganhar espaço, porém, por conta de alguns efeitos colaterais: ganho de massa e definição muscular, aumento da libido e melhora na textura da pele. Trata-se de uma cápsula, de 3cm a 4cm, colocada sob a pele de mulheres com baixas taxas hormonais, liberando na corrente sanguínea progesterona, com uma pequena dose de estrogênio e testosterona (hormônios feminino e masculino, respectivamente).

A atração das mulheres por essas promessas é compreensível, mas não deixa de ser preocupante. Uma eventual aplicação inadequada, com níveis hormonais destinados mais a ganho muscular do que a qualquer outra coisa, pode gerar efeitos colaterais extremamente desagradáveis, tanto do ponto de vista estético quanto do de saúde.
O objetivo primeiro desses implantes é mesmo suspender a menstruação, quando ela se torna algo problemático, doloroso ou causador de endometriose. “Há mulheres que sofrem demasiadamente com a tensão pré-menstrual (TPM), que traz sintomas de depressão, irritação e dores. Além disso, há pacientes com um fluxo tão forte que chegam a ficar anêmicas. O implante combate tudo isso, além do efeito contraceptivo”, explica Malcom Montgomery, ginecologista e obstetra.
O médico esclarece que os implantes são combinações de hormônios que ajudam, além de na suspensão da menstruação, em tratamentos de saúde, como a reposição hormonal. “São mais de 30 combinações utilizadas por nós. O importante é individualizar a paciente para saber o quanto ela precisa de hormônio”, ressalta.



O presidente da Sociedade Brasileira de Ginecologia Endócrina (Sobrage), Elsimar Coutinho, é precursor e defensor do método no Brasil. Mesmo ele, porém, ao explicar como o implante é feito — à base de progesterona sintética, que tem uma pequena ação parecida com a da testosterona —, não deixa de se referir aos riscos de efeitos indesejáveis do implante. “É um composto químico que tem alguns efeitos andrógenos (no caso, que aproximam as reações do corpo feminino às do masculino). Isso leva a um aumento de massa muscular, mas também pode levar a aumento de pelos, queda de cabelos, oleosidade da pele, acne. Cabe ao médico dosar o hormônio de acordo com cada paciente, para minimizar esses efeitos colaterais”, ressalva Coutinho.Sem previsão

Ruth Clapauch, vice-presidente do departamento de endocrinologia feminina e andrologia da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbema) e membro da Sociedade Americana de Endocrinologia, esclarece que o uso desses implantes para fins estéticos não é regulamentado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) nem pela Sociedade Americana de Endocrinologia. Ela alega que a questão da relação custo-benefício ainda não está bem fundamentada para o uso específico na estética. “O que não está bem fundamentado é a segurança na utilização desse hormônio, porque pode levar a vários efeitos colaterais. Eles podem ser de curto prazo, como aumento de pelos, queda de cabelo, engrossamento da voz e infertilidade, ou de longo prazo, como aumento da gordura abdominal, resistência à insulina, diminuição do colesterol bom e alteração da pressão arterial.”
Clapauch também ressalta a importância dos exames antes da colocação do implante, mesmo com fins contraceptivos. “Não posso dizer que ele é recomendado, isso vai depender de cada paciente.” Por isso, a mulher passa por uma bateria de exames de sangue, além de um ultrassom de todos os órgãos responsáveis pelas funções endócrinas, para só então o médico avaliar se ela pode fazer uso do método.

Malcom Montgomery, que tem pacientes famosas, como Ana Hickman, Sheila Mello e Adriane Galisteu, entre outras, afirma que recusou várias pacientes que buscavam a tal receita da beleza. “Não coloco o implante se a mulher estiver equilibrada hormonalmente. Seria o mesmo que ‘bombar’ essa paciente”, diz. “Os hormônios podem definir a qualidade de vida. O que fazemos é usá-los de forma equilibrada para atender os interesses das pacientes, baseados na saúde”, completa.
A professora de educação física Luciana Cirillo, 40 anos, utiliza o implante há seis. Ela conta que se rendeu ao método por conta dos fortes sintomas da TPM. “Sofria com oscilações de humor terríveis. Tinha períodos nos quais passava dias trancada dentro do quarto chorando. Em outros, queria matar meus dois filhos de tanta irritação. Depois que coloquei o implante, acabou tudo.” Porém, como tudo tem o outro lado, Luciana sofreu durante um ano com os efeitos colaterais até chegar à dose certa de hormônio. “Passei por meses de inchaço, acne e queda de cabelo. Pensei em desistir, mas nada pagava a alegria de não sofrer mais com a TPM.”

Como resultado secundário, a educadora física exibe um corpo bem definido de dar inveja a muitas meninas de 20 anos. “Quando a gente chega aos 40 anos, tudo começa a cair. Comigo isso não aconteceu, e devo isso ao implante — acho que ele ajuda a manter —, claro, aliado a muita malhação e a uma alimentação equilibrada”, diz. De acordo com Coutinho, se não houver disciplina nas atividades físicas e uma alimentação balanceada, o efeito no corpo é o contrário. “Não é mágica. Ele exige atividade física regular e alimentação correta, senão a mulher acumula gordura abdominal, uma característica masculina.”

“Chipadas”
Para Tatiana Cirillo, 28 anos, sobrinha de Luciana e atleta de corrida de aventura, o implante foi a saída para sanar o desconforto de estar menstruada durante os dias de competição e atingir uma melhor performance no esporte. “Não tem nada a ver com doping”, ressalta. Tatiana tinha uma baixa hormonal que foi sanada pelo implante de estradiol sintético. “Perdia muita massa muscular durante a competição e a causa era um desequilíbrio hormonal. Hoje, me recupero mais rápido”, conta. Além disso, a atleta relata que não é nada fácil ficar uma semana menstruada no meio do mato. “Era terrível e, na maioria das vezes, constrangedor”, lembra.
No mundo das academias, as mulheres que utilizam o método do implante são chamadas de “chipadas”. “A gente escuta as pessoas falando: ‘Olha aí, lá vai a bombada’. Isso é constrangedor”, comenta Flávia*, 40 anos. Mãe de dois filhos, ela utiliza o implante há oito anos como contraceptivo. “Tentei de tudo e não me dava bem com nenhum método”, lembra. Ela garante que o efeito secundário — dos músculos bem definidos — que o implante traz é mais fruto de sua genética e da disciplina nos exercícios. Mesmo tachada como “chipada”, Flávia é bastante abordada na academia por meninas que querem um corpo como o dela. “Malho desde os 30 anos e sempre fui magra. Tudo é uma consequência da vida que levo. As pessoas são mal informadas e acham que o implante é milagroso. Estão erradas”, diz.

Nome fictício a pedido da entrevistada
MULHER SEMPRE PREOCUPADA COM O CORPO. CUIDADO É SEMPORE BOM TER INFORMAÇÕES ANTES DE ADERIR A MODA DOS 'remédios"

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