quinta-feira, 14 de abril de 2011

Mulher nota 9

Você conhece uma mulher assim: quando a gente pergunta qual a sua maior qualidade, ela não sabe responder, mas, quando perguntamos pelo pior defeito, ela se apruma e diz com um prazer maldisfarçado: "Sou perfeccionista demais!" Provavelmente, ela é igualzinha à mulher que aparece todos os dias no espelho do seu banheiro. Confesse: você também não é uma faz-tudo exemplar?Meninas, hora de nos reavaliar. Coffee-break. Temos de descobrir aonde, afinal, queremos chegar com essa busca desenfreada pela perfeição. Fingimos que consideramos o perfeccionismo um defeito, mas, no fundo, é nosso orgulho maior. Só que esse orgulho tem um preço. Quem foi que disse que, ao assumirmos certas atribuições outrora masculinas, teríamos que virar as mestras em eficiência, as Ph.D. em produtividade? Não foi para isso que se fez a revolução feminista. Que eu me lembre, foi para nos libertar, não para nos enjaular.No entanto, é assim que nos encontramos hoje: presas a uma expectativa de sucesso absolutamente insana. E não bastasse todo o nosso empenho em ser a melhor profissional, a melhor mãe, a melhor esposa, ainda fazemos nossa parte para salvar o planeta: fechamos torneiras, economizamos combustível, só compramos produtos biodegradáveis com embalagens recicláveis e evitamos sacolas plásticas, já que plástico é um veneno. Ufa! Já foi mais fácil viver.Antigamente, no tempo daquelas senhoras de cabelo branco, tudo o que uma mulher almejava era que as camisas do marido fossem bem passadas, que a casa não apresentasse sinal de poeira e que as crianças tirassem boas notas no colégio. Era sopa no mel. Dávamos conta de tudo e sobravam tardes e tardes para pensar no que faríamos se fôssemos donas do próprio nariz. De repente, entendemos que o nariz era realmente nosso e de ninguém mais. Era a senha para invadir o mundo deles, que sempre foi mais estimulante e divertido. Passamos a trabalhar, a ter o próprio dinheiro, a viajar sozinhas, a sair à noite com as amigas, a praticar esportes, a ler os jornais, a ter opinião, gozar, fumar, dirigr, votar, trair e coçar - era só começar. Por pouco não deixamos crescer o bigode, mas nem tudo em Frida Kahlo é inspirador. Ser valente, raçuda e corajosa, sim, pero perder a vaidade, jamás.Atualmente, mulheres tripulam foguetes, presidem países e são autoras de descobertas científicas. Mas você, que não é astronauta nem presidente de nada nem candidata a Einstein, anda se cobrando dessa maneira por quê? Era para ser divertido, lembra? Só que sua agenda está mais cheia do que a da Condoleezza Rice. Você não consegue se conceder meia hora para fazer as unhas. Está tão estressada que quase cai aos prantos quando seu patrão dá uma bronca. E você não dorme, criatura! Acredita mesmo que cinco horas por noite é suficiente? Suficiente para pescadores! Você passa seu creme anti-rugas antes de se deitar e, quando acorda, elas estão todas lá, quadruplicadas pelo cansaço. E nem adianta tentar encontrar uma horinha para aplicar Botox porque sua dermatologista está sem hora livre até abril - ela é mulher como você, portanto, outra maluca viciada em agenda cheia. Estamos todas perdendo feio para este que devia ser nosso aliado, mas virou um inimigo: o tempo.É do psicanalista Contardo Calligaris a frase: "Não é tão importante ser feliz, mais vale ter uma vida interessante". Pergunte a si mesma: assumir tantos compromissos e ser tão tirânica em relação ao seu de sem penho está fazendo você mais feliz? Se a resposta é não, pare tudo e troque por uma vida mais interessante




Eu não sirvo de exemplo para nada, mas, se você quer saber se isso é possível, me ofereço como piloto de testes. Sou a miss Imperfeita, muito prazer. Uma imperfeita que faz tudo o que precisa fazer, como boa profissional, mãe e mulher que também sou: trabalho todos os dias, ganho minha grana, vou ao supermercado três vezes por semana, decido o cardápio das refeições, levo as filhas no colégio e busco, almoço com elas, estudo com elas, telefono para minha mãe todas as noites, procuro minhas amigas, namoro, viajo, vou ao cinema, pago minhas contas, respondo a toneladas de e-mails, faço revisões no dentista, mamografia, caminho meia hora diariamente, compro flores para casa, providencio os consertos domésticos, participo de eventos e reuniões ligados à minha profissão e ainda faço escova toda semana - e as unhas! E, entre uma coisa e outra, leio livros. Portanto, sou ocupada, mas não uma workaholic. Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coisinhas que operam milagres.

Primeiro: a dizer NÃO.

Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer não. Culpa por nada, aliás.Existe a Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero. Pois inclua na sua lista a Culpa Zero. Quando você nasceu, nenhum profeta adentrou a sala da maternidade e lhe apontou o dedo dizendo que a partir daquele momento você seria modelo para os outros. Seu pai e sua mãe, acredite, não tiveram essa expectativa: tudo o que desejaram é que você não chorasse muito durante as madrugadas e mamasse direitinho. Você não é Nossa Senhora. Você é, humildemente, uma mulher. E, se não aprender a delegar, a priorizar e a se divertir, bye-bye vida interessante. Porque vida interessante não é ter a agenda lotada, não é ser sempre politicamente correta, não é topar qualquer projeto por dinheiro, não é atender a todos e criar para si a falsa impressão de ser indispensável.É ter tempo. Tempo para fazer nada. Tempo para fazer tudo. Tempo para dançar sozinha na sala. Tempo para bisbilhotar uma loja de discos. Tempo para sumir dois dias com seu amor. Três dias. Cinco dias! Tempo para uma massagem. Tempo para ver a novela. Tempo para receber aquela sua amiga que é consultora de produtos de beleza. Tempo para fazer um trabalho voluntário. Tempo para procurar um abajur novo para seu quarto. Tempo para conhecer outras pessoas. Voltar a estudar. Para engravidar. Tempo para escrever um livro que você nem sabe se um dia será editado. Tempo, principalmente, para descobrir que você pode ser perfeitamente organizada e profissional sem deixar de existir. Porque nossa existência não é contabilizada por um relógio de ponto ou pela quantidade de memorandos virtuais que atolam nossa caixa postal. Existir, a que será que se destina? A ter o tempo a favor, e não contra.A mulher moderna anda muito antiga. Acredita que, se não for súper, se não for mega, se não for uma executiva ISO 9000, não será bem avaliada. Está tentando provar não-sei-o-quê para não-sei-quem. Precisa respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar cada pedacinho de si. Se o trabalho é um pedação de sua vida, ótimo! Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que ser independente. Mulher que se sustenta fica muito mais sexy e muito mais livre para ir e vir. Desde que lembre de separar alguns bons momentos da semana para usufruir essa independência, senão é escravidão, a mesma que nos mantinha trancafiadas em casa, espiando a vida pela janela.Desacelerar tem um custo. Talvez seja preciso esquecer a bolsa Prada, o hotel decorado pelo Philippe Starck e o batom da M.A.C, mas, se você precisa vender a alma ao diabo para ter tudo isso, francamente, está precisando rever seus valores. E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha rústica à beira-mar e o rosto lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem ser prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova perspectiva sobre o que é, afinal, uma vida interessante.



Depoimentos a Juliana Diniz:



Impulso para mudar

"Sem controlar minha ansiedade, ficava até 2 horas da manhã trabalhando para cumprir prazos apertados com o máximo de perfeccionismo. Me dei conta do absurdo quando um cliente me perguntou: "Você não tem filhos, não é? A julgar pela hora em que envia e-mails, não dever ser mãe". Não sou mesmo, mas levei um susto com a frase. Hoje trabalho num ritmo diferente."

Teresa Cristina Machado, 44 anos, de Brasília

Perfeccionista assumida



"Sou fisioterapeuta e tenho uma clínica de estética. Acordo às 5h30, faço natação, pilates, vou para o trabalho e fico lá até 21 horas. Me dedico para obter resultados, ser reconhecida como a melhor. Me sinto feliz quando chego exausta em casa, porque sei que estou no caminho certo para alcançar o que desejo. Também quero que meu filho seja o melhor: depois da escola, tem aula particular e sessões com a fonoaudióloga, o que ajuda no rendimento escolar. Como não gosta de estudar, fico no pé".

Andréa Fonseca, 32 anos, do Rio de Janeiro

Depois do colapso



"No banco em que eu trabalhava, assumia tarefas dos colegas para agilizar o processo. Tinha medo de errar e vivia revendo os mínimos detalhes. Só comia lanches e não tinha horário para sair. Depois de um ano, fui perdendo a voz. Passei por uma cirurgia para retirar um nódulo e tive que aprender a exigir menos de mim. Mudei de seção, ganhei um cão, voltei a namorar e me sinto mais feliz"

Cintia Diniz, 31 anos, de Mairiporã (SP)

Pressão interna



"Por três anos, fui secretária executiva em São Paulo. Voltava muito tarde para casa e só via meu bebê dormindo. Não era essa a mãe que queria ser. Então me mudei para uma fazenda do meu avô. Tanta calma me entediou e decidi dar aulas de línguas numa cidade vizinha. Achei que o campo alteraria meu jeito de viver, mas engatei o mesmo ritmo alucinante. Abandonei algumas aulas, mas não paro. Sou do tipo que aos sábados arruma o guarda-roupa"

Fernanda Sarreta Francisco, 30 anos, de Comendador Gomes (MG)




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