quinta-feira, 10 de março de 2011

O corpo da mulher no carnaval

Primeiro de tudo, quando falo em corpo aqui não me refiro a cadáveres…




E não é uma coincidência que o Carnaval caia no Dia Internacional da Mulher? É, é sim, porque uma data não tem nada a ver com a outra. Entretanto, pensemos na forma como o corpo da mulher é tratado especificamente no carnaval. Não é exatamente uma exaberbação da forma como o corpo da mulher é visto nos demais dias do ano
Veja, o que é um homem esbelto com o corpo cheio de músculos? Ele até pode ser atraente para as mulheres e seu corpo pode ser visto como um objeto de satisfação sexual, no entanto nunca se restringe a isso. Um homem forte também pode ser sinônimo de guerreiro em sociedades bélicas ou de um bom trabalhador braçal. Ao corpo do homem se atribuem outras funções.

Já uma mulher com corpo bem definido, com seios e quadris grandes para o que serve? Para o sexo. E nada mais. Essa é a função do seu corpo. E se continuarmos com a visão utilitarista do corpo, não vamos progredir muito. O corpo da mulher serve para o sexo, segundo a visão do homem, que foi até agora quem mandou no mundo.
O corpo poder servir para uma série de coisas, mas o corpo não só serve, ele também é. Nós não usamos o nosso corpo, nós somos o nosso corpo (e nossa alma, nossa mente também, para os dualistas). E nesse ponto reside uma luz para elucidar a questão do corpo da mulher no carnaval.
Esses corpos purpurinados, sarados e suados (sim, suados) estão dançando e se exibindo para o deleite pervertido masculino, isso é fato. O contrário também pode acontecer para o deleite das mulheres, mas estaríamos nivelando a igualdade de gêneros pelo que há de pior na natureza humana.
Aristóteles era a favor da escravidão por, entre outros motivos, entender que aqueles que não tinham capacidade intelectual para contribuir com a pólis, deveriam contribuir com o trabalho físico. Basicamente, quem não pensa, deve ajudar fazendo o trabalho pesado. De certa forma ainda vivemos com este estigma: gente de corpo bonito não pensa e vive da sua beleza. Ao que parece, ser bonito e inteligente está além do alcance da nossa espécie.
Aceitar esse pensamento consiste em reforçar um preconceito que atravessa gerações e civilizações, preconceito esse que tomou diferentes formas e que é a base para a ideia a respeito do corpo da mulher atualmente. No carnaval, principalmente. O corpo da mulher é para o sexo. Peito, coxa, bunda. Como em um açougue, vemos apenas partes através dos closes da câmera.
A revolução sexual feminista trouxe como efeito colateral a outra forma de aprisionar a mulher: em vez de longos trajes fechados, tem-se agora a nudez. De uma forma ou de outra, o homem vê a mulher tão somente como o corpo, a carne, cujo sentido é o prazer e, há quem diga também, a procriação. Ou seja, o sentido do feminino até hoje é dado pelo homem, muito embora seja louvável como as mulheres demonstrem independência na busca pela sua própria identidade como mulher.
E isso tem a ver também com a sensualidade, por que não? Cada mulher deveria saber (e querer) quais características suas são boas e o fato de ser bonita é uma delas. E realmente é um ponto delicado saber se você controla a sua aparência ou se sua aparência é moldada conforme um suposto padrão dominante impõe. Ninguém vai se dizer mandado; todo mundo gosta de dizer que faz as coisas por que quer. Verdade? Só se entrarmos na mente do indivíduo que o diz. Entretanto buscar alternativa ao dilema ou ser bonita ou ser inteligente já significa pensar fora de paradigmas preconceituosos.
Carnaval é, dentre muitas coisas, mulher bonita semi-nua (ou nua mesmo). É também putaria, sejamos francos. E até que ponto o corpo, principalmente o corpo da mulher, está sendo o que de fato é ali no desfile da escola de samba e até que ponto ele está a serviço da perversão masculina? Ou os corpos das mulheres e dos homens estão ali apenas como instrumento um do outro ou como seres que agem conforme a sua identidade como homens e mulheres?
A busca por igualdade de condições pelas mulheres é uma luta importante e incompleta ainda. E essa coisa de Carnaval só ajuda a confundir as coisas. Mas Carnaval é caótico por natureza. Ele é uma intensificação do que é a vida no resto do ano, por isso o festejo acaba, mas as questões sobre o feminino persistem. E não deveriam se esquecidas.

Disponivel em: http://cicero.blogsome.com/2011/03/09/509/: Acesso em 10 de março ]
SALVEM OS CORPOS FEMININOS SEMPRE.  O CARNAVAL É SOMENTE UMA PASSARELA DE EXIBIÇÕES
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