sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Corpos femininos, mais uma mercadoria no capitalismo

Por Babi Dellatorre , Diana Assunção , Livia Barbosa

Enquanto escrevemos esse artigo, 4 milhões de mulheres, meninas e meninos são explorados sexualmente no mundo inteiro, e o Brasil é o primeiro país no ranking latino-americano do tráfico de mulheres . Ao mesmo tempo, a sociedade patriarcal na qual vivemos naturaliza uma imagem abusiva das mulheres enquanto objetos sexuais, incentivando a busca de um estereótipo de beleza caro, e reforçando a idéia de que as mulheres já se “emanciparam” sexualmente. Mas a sexualidade, especialmente a feminina , é reprimida sempre que não está diretamente relacionada com a reprodução. Também, a decisão e autonomia das mulheres sobre seu próprio corpo são consideradas crime pela justiça burguesa de nosso país, resultando na morte de milhares de mulheres por conta dos abortos clandestinos. É desta ordem patriarcal que o capitalismo se apropria para perpetuar a sua ordem de exploração.



Patriarcado e propriedade privada

Nas sociedades patriarcais sempre se transmitiu a idéia de que há um modelo normal e regular de estruturas familiares e relações sexuais. Isso porque, como demonstra Friederich Engels em A origem da família, da propriedade privada e do Estado, a opressão das mulheres foi e segue sendo extremamente funcional para a perpetuação da propriedade privada dos meios de produção, no caso das famílias proprietárias, e para a reprodução da força de trabalho, no caso das famílias expropriadas. A necessidade histórica de perpetuar dentro do núcleo familiar, passando de pai para filho, os instrumentos de caça e coleta e o rebanho criado pelo homem e, por isso, alterando a anterior divisão das famílias para famílias patriarcais monogâmicas, pontua, segundo Engels, a origem da opressão da mulher. Nesse sentido, o domínio dos homens sobre suas casas e mulheres coincide com o desenvolvimento da idéia de propriedade, materializada no que chamamos de herança. É como parte deste processo que surge o direito paterno e a monogamia, conformando o patriarcado. O que então surgiu séculos antes do capitalismo, combinado a ele se transforma num pilar da exploração. Durante séculos, as mulheres se configuraram como um grupo socialmente subordinado, cuja sexualidade sempre foi reprimida. E a idéia de que a mulher, seu corpo e subjetividade, devem ser exclusividade do marido está relacionada ao fato desta ser considerada mais uma das propriedades do homem.



Do corpo ideal ao corpo vendido

Toda essa estrutura patriarcal subordina as mulheres ao papel de objeto: se antes a mulher era vendida como uma reprodutora pelos pais a um marido, hoje seu corpo é vendido em comerciais de cerveja, por exemplo. A democracia burguesa não nos deu o direito de não ser “coisa” , ao contrário, naturalizou sermos comparadas a animais irracionais e objetos (“éguinha pocotó” , “cachorras” , “mulher melancia” etc.). Isso porque a sexualidade feminina é definida segundo o prazer masculino, tendo seus corpos estigmatizados por um modelo de beleza alucinante e inalcançável, que também acaba reforçando outras opressões, pois se trata de um esteriótipo de beleza pautado nas pelas brancas, cabelos lisos, o corpo esbelto, e, além disso, na juventude. Essa idéia se expressa nos casos de assédio sexual nos locais de trabalho, que são utilizados como forma de chantagem com as trabalhadoras. Nos escandalosos casos de assédio e estupro nas moradias estudantis da USP e da UNESP que permanecem no “silêncio dos corredores” . Mas no capitalismo, não somente se “vende” a idéia de um corpo feminino ideal e de que somos objetos... Vendem os corpos femininos. Mulheres são vítimas de poderosas redes de tráfico, que contam muitas vezes com a cumplicidade de orgãos do governo ligados à indústria do turismo. Os dados referentes ao tráfico internacional são estarrecedores: dos brasileiros que cruzam o Atlântico vítimas do tráfico, 90% são do sexo feminino. Na Europa cerca de 500 mil mulheres são traficadas por ano, sendo desse total 75 mil o equivalente a mulheres brasileiras. No Brasil, as regiões mais atingidas pelo tráfico de mulheres, crianças e adolescentes são a Norte e a Nordeste, as mais pobres, segundo a Pesquisa Sobre Trafico de Mulheres, Crianças e Adolescentes para Fins de Exploração Sexual Comercial no Brasil (Pestraf).



Nós somos sujeito, e não objeto

Toda e qualquer forma de divisão dentro da classe trabalhadora é muito útil à classe dominante, que ao mesmo tempo se utiliza da opressão para disseminar em nossa classe os piores preconceitos, naturalizando diferenças salariais e condições de trabalho pelo sexo, por exemplo. Acreditamos que as mulheres devem se organizar politicamente e se levantar contra esta ordem. E, particularmente, devem enxergar na classe trabalhadora, um aliado estratégico. Porque essa ordem patriarcal hoje é garantida pelo capitalismo que nos explora e oprime duplamente, em nossos locais de trabalho e em nossa segunda jornada dentro de casa. Exigimos, portanto, educação sexual, sem intervenção da Igreja, para que as jovens possam conhecer e desfrutar de sua sexualidade como decidam. Punição a todos os estupradores e violentadores que seguem impunes. Direito ao aborto legal, livre, seguro e gratuito. Direito à maternidade plena, com possibilidade de atendimento de qualidade nos hospitais públicos. Exigimos também o fim das redes de tráfico de mulheres e crianças. O fim das ditaduras de uma beleza inalcançável, de padrões racistas, da propaganda abusiva. Mas acreditamos que a luta por todas essas reivindicações é inseparável da luta por uma outra sociedade livre de toda a exploração e opressão que hoje condenam a humanidade, e que aprisionam de forma mais cruel a nós mulheres. *Diana Assunção é trabalhadora da USP e dirigente da LER-QI. Livia Barbosa é assistente social e Babi Dellatorre estuda na UNESP de Rio Claro. Todas integram o grupo de mulheres Pão e Rosas. Leia o artigo na íntegra no site www.ler-qi.org



ENESS: Nem crítica ao governo, nem plano de lutas* Balanço das estudantes de Serviço Social e assistentes sociais integrantes do Pão e Rosas que estiveram neste último ENESS.



O Encontro Nacional de Estudantes de Serviço Social (ENESS)[1] reuniu estudantes de todo o país dispostos a discutir a opressão que sofrem as mulheres, os/as negros/as e os/as homossexuais, como se aliar aos trabalhadores e como responder aos duros ataques que os governos e os capitalistas tentarão nos impor com a crise se não nos organizarmos. Nós do Pão e Rosas desde o início do encontro travamos uma dura luta para expressar a solidariedade dos estudantes ao povo hondurenho que bravamente resiste à repressão pelos golpistas, respondendo ao chamado feito pelas feministas hondurenhas à que a América Latina se solidarizasse com sua luta, propondo que resgatássemos os atos que sempre foram realizados nos encontros. Mas lamentavelmente os companheiros da esquerda anti-governista estavam somente preocupados com as eleições para a executiva do curso e o ato não foi realizado. Apresentamos propostas como a defesa do marxismo em nosso currículo, por entendermos que o marxismo não só é a melhor teoria para explicar a sociedade de classes, como é a única que nos dá ferramentas para intervirmos nela aliando-se aos trabalhadores para buscar a superação deste sistema de opressão e exploração. E também a importância de lutarmos pela inclusão de disciplinas (obrigatórias) que tratem da questão da mulher com um viés marxista, por entendermos que esse tipo de opressão é muito útil ao capitalismo, para que possamos compreender que um dos passos mais importantes para a superação da opressão às mulheres passa pela superação do sistema capitalista. Enquanto integrantes da Região VII (SP) propusemos a luta pela incorporação do Serviço Social na USP já! Esta proposta generalizou pra que em todas públicas do país que ainda não oferecem o curso, com currículo pleno discutido amplamente. Propusemos também campanhas impulsionadas pelo Pão e Rosas em diversas Universidades, como a campanha contra a Terceirização, pela efetivação das/os trabalhadoras/es, a Campanha Latino Americana pela Legalização do aborto e a campanha contra a homofobia (Somos todas Marcelo Campos), chamando todas e todos estudantes dispostos a levá-las para seus locais de estudo e trabalho.



Chega de aparatos vazios! Organizar os estudantes desde a base!



Assim como no CNE, neste ENESS a discussão sobre qual programa levantar para se aliar aos trabalhadores e enfrentar a crise capitalista foi praticamente suprimida em função da discussão oca de romper ou não com a UNE e construir ou não a ANEL. Apesar de termos passado a semana toda discutindo com estudantes de todo o país, colocando nossas propostas nas brigadas, mesas e discutindo com todos/as nas reuniões abertas do Pão e Rosas, essas não foram encaminhadas para Plenária Final, devido a um gravíssimo “erro” de sistematização, um problema político que demonstra o desinteresse das correntes da esquerda anti-governista em discutir um plano de lutas concreto para o Movimento Estudantil. Também acreditamos que este espaço para a discussão e combate à política em favorecimento aos capitalistas por parte do governo Lula foi desaproveitado. Pois enquanto o governo Lula dá rios de dinheiro para os capitalistas, pago com o suor da classe trabalhadora através de impostos, assistimos o aumento das demissões em massa, acordos para demissão “voluntária” , corrupção e crise no senado, a saúde pública do país entra mais uma vez em colapso diante da gripe suína, tal como foi quando a dengue matou em sua maioria a população pobre simplesmente pela incapacidade do minguante SUS prestar atendimento. A política do governo na educação também não é sustentável pois a atual expansão enfrenta-se com as já escassas verbas que serão questionadas para repassar aos exploradores para que sigam lucrando. Chamamos todas/os estudantes, assim como a ENESSO, a levar para cada local de estudo as propostas que foram discutidas nas brigadas e mesas, as propostas que foram aprovadas na plenária final. Para dar um pontapé inicial, podemos desde já expressar a mais ampla solidariedade ao povo hondurenho e em setembro nos manifestar no dia 28 (Dia latino-americano e caribenho pela legalização do aborto) com atos, debates.
Disponível m: < http://www.ler-qi.org/spip.php?article1900 > Acesso em 3 de setembro de 2010

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