sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Anorexia aos 11 anos

A paulistana Fernanda Eleutério fala sobre o drama da doença na infância. Aos 19 anos, está recuperada e é estudante de enfermagem

Aline Ribeiro



RECUPERADA

Fernanda teve anorexia aos 11 anos (foto à esq.). Hoje, com 19 (à dir.)Eu era uma criança gordinha. Tinha menos de 1,50 metros e pesava quase 60 quilos. Na escola, me chamavam de baleia, barril... Sempre fui traumatizada com isso. As crianças têm preconceito com o diferente. Aí você mesma acaba se diferenciando dos outros, se distanciando. Me sentia invisível na infância. Eu tinha uma única amiga. Eu era gordinha e ela era muito magra. Acho que por isso nos aproximamos. Os outros colegas não conviviam com opostos.



Eu tinha 11 anos e, nas férias de janeiro, decidi que queria fazer alguma coisa para emagrecer. Meu prato passou a ficar cheio. Mas cheio de alface. No começo, meus pais pensavam: “nossa filha está fazendo regime, que coisa boa”. Quando eu perdi muito peso, começaram a ficar desesperados.



Meus pensamentos eram distorcidos. Me olhava no espelho e via uma pessoa muito gorda. Hoje consigo lembrar exatamente daquela imagem. Com uma diferença: agora eu sei que era raquítica. Além de me enxergar gorda, eu via os outros gordos. Eu assistia ao São Paulo Fashion Week e achava todas aquelas modelos esqueléticas gordas demais.



Um dia, peguei uma colher menor que de café para comer uma fruta. Eu olhava para aquela colher e via uma coisa enorme. Parecia que eu ia virar uma bola depois que comesse aquela quantidade. Comecei reduzindo as quantidades de porções. Em seguida, tirei doces e gorduras. Teve um momento que eu quase não comia.

Eu pegava livros de Biologia na escola para aprender sobre as calorias. Tinha uma tabela e eu calculava o quanto comia. Não podia passar de 200 calorias por dia. E eu já achava demais.

Um dia, a professora de Biologia pediu cada aluno fazer sua pirâmide alimentar e perguntou de quem estava invertida. Eu fui a única a levantar a mão. A minha pirâmide tinha salada na base. Carboidrato e proteína ficavam lá em cima. Sem contar que não tinha ponta. Eu nem pensava em comer açúcar e gordura.

Quando algum amigo me perguntava sobre alimentação, eu respondia na ponta da língua, como se fosse médica. Na minha vida, não conseguia aplicar nada. Esta foi a época que eu mais cozinhei na minha vida. Fazia as pessoas comerem bife a parmegiana, coisas gordurosas que eu nunca comeria. Queria ver os outros felizes.
Eu lia todas as revistas com mulheres perfeitas na capa e achava demais. Via aquelas chamadas “Emagreça 5 kg em uma semana” e lá ia eu.
Criei vários rituais. Eu precisava mastigar dois minutos cada colherada de comida. Sempre deixava alguma coisa no prato. Só fazia as refeições em horários padrões. Eu chorava quase todas as refeições. Ficava aos prantos. Parecia que tinha caído uma bomba no meu estômago. E que eu tinha engordado muito com aquilo.
Coloquei uma esteira no meu quarto para ajudar a emagrecer. Eu acordava de madrugada e, escondida dos meus pais, fazia exercícios. Não durou muito, porque eu tinha pouca força.
Fui de quase 60 kg para 27 kg em menos de seis meses. Eu quase não tinha cabelo, sentia muito frio mesmo no verão, não tinha mais força para nada. Quando o corpo se acostuma a emagrecer, não para mais. Perdi 7 kg em uma semana. 2 kg de um dia para o outro. Se eu medisse, a cintura cabia dentro das minhas mãos.

»Prevenção da anorexia: o exemplo é tudo

»Anorexia no recreio
Meus batimentos cardíacos chegaram a 50 por minutos (o normal é entre 90 e 120 bpm). Tive osteopenia (perda de cálcio nos ossos). Não menstruei por um ano. Eu era amarelada e tinha aparência de 70 anos.
Eu não deixei de ir à escola, mas não tinha força para manter minha postura ereta na cadeira. Eu ficava com os braços e cabeças deitados na mesa durante toda a aula. Só conseguia ouvir o que o professor falava. Passei a ter dificuldades para caminhar. Precisava me apoiar na minha mãe, como se fosse uma bengala, para me locomover.
Meus pais procuraram ajuda. Nutricionistas, psicólogos, psiquiatras. Comecei a fazer o tratamento para ganhar peso, mas ainda não me conformava em ter de comer. Eu pensava: “minha dieta é perfeita”, “o mundo está errado”, “eles deveriam fazer como eu”.
Eu não sei por que tive a doença. Pode até nem ter sido por causa dos apelidos na escola. Acho que eu tinha predisposição. Teria anorexia de qualquer jeito.
Oito anos se passaram e algumas coisas eu ainda não como. Quando eu ganho chocolate do namorado, eu distribuo. Só comi chocolate uma vez ou outra, quando minha médica mandou.

É muito difícil se livrar dos pensamentos da doença. A nutricionista, às vezes, me diz: “eu não estou falando com a Fernanda. Agora estou falando com a doença”. Como enfermeira, eu sei tudo o que dizer sobre a doença ao paciente. Mas como paciente, ainda hoje não sei se iria escutar.

Minha nutricionista quer que eu coma mais arroz. Me diz: “Fernanda, você quer ou não quer ter alta?” Eu quero e não quero. Eles são meu apoio. Se eu fosse fazer regime de novo, eu poderia ter de novo. Eu acho que não teria limites.





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