segunda-feira, 31 de maio de 2010

Georgia O`Keeffe e a loucura do amor feminino

Georgia O`Keeffe e a loucura do amor feminino
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31–05–2010 – Compartilhar – Enviar para e-mail

Tuitarpor Fernando da Mota Lima
Faz anos que a crítica de cinema morreu, também a literária. Quero dizer, morreu no espaço da grande mídia cultural. Ambas se refugiaram em alguns nichos acadêmicos, não raro completamente inacessíveis ao leigo inteligente. Para ler e compreender parte dessa crítica esotérica, o leigo precisaria de um treinamento intelectual de dez anos, no mínimo, empanturrando-se de teoria, que aliás passou a importar muito mais do que as obras de criação artística.

A grande mídia cultural teve durante algumas décadas o privilégio de educar o público de cinema e literatura através de críticos como Edmund Wilson e Pauline Kael, nos EUA, André Bazin e François Truffaut, na França, Antonio Candido, Paulo Emílio Salles Gomes e Sérgio Augusto, no Brasil. Cito apenas os primeiros que me vêm à memória. O que hoje prevalece fora dos nichos esotéricos da academia são exercícios sociológicos ou psicanalíticos livres e sumários, por vezes inteligentes e criativos, mas que pouco ou nada tem a ver com crítica. Diria que prevalece antes de tudo o infrene subjetivismo dos autores numa atmosfera cultural cujo narcisismo converte crônicas e artigos em pura projeção de egos olímpicos, ainda quando irrelevantes. Diante do quadro acima grosseiramente esboçado, entro na dança e logo alerto o leitor ocasional para o fato de que o que segue não é crítica de cinema.
Quando vi Georgia O`Keeffe (EUA, 2009), baseado na história da personagem de mesmo nome, fui tomado por um choque de beleza. Incapaz de traduzi-lo em palavras, tudo que me veio à cabeça foi escrever uma crônica ficcional, se posso abusar desta expressão, sob o influxo do filme pulsando ainda na memória e na imaginação. Aliás, acho que fui inibido pelas cenas iniciais. Nelas Georgia (Joan Allen) afirma sem meias palavras sua desconfiança das palavras. Deixe que a pintura fale sua própria linguagem, diz ela. Que fazer de mim, coletor de palavras, incapaz de desenhar uma janela, uma face humana, a fuga da luz entre o olhar e o espelho? Se querem saber de Georgia, do que viveu e sofreu, descubram-no na obra que pintou. É ela novamente reprimindo meu discurso feito só de palavras. Seu tom, franco e direto, sugere a medida de sua integridade humana e artística.
Alfred Stieglitz (Jeremy Irons) entra em cena. Ele tem o poder de revelar Georgia para si própria ao indicar-lhe as fontes irracionais de sua criatividade. Stieglitz assinala o que todo crítico, todo tradutor de arte, ainda quando racionalista, precisa reconhecer: os móveis inconscientes da criação artística. Mas tudo que Georgia pontua no início do filme soa como uma ironia, pois ela desqualifica a palavra valendo-se… de palavras. Isso me fez lembrar uma das boutades geniais de Millôr Fernandes, que num passe de mágica inverte uma verdade consagrada: uma imagem diz mais do que mil palavras. No entanto, tente dizer isso sem usar palavras.
Mas o fato é que eu, racionalista quase autopunitivo, rendi-me à força milagrosa do filme. A beleza da fotografia, a força magnética de duas personalidades tão excepcionais, Georgia e Stieglitz, magnificamente interpretadas por Joan Allen e Jeremy Irons, a magia da pintura transposta para a linguagem do cinema, tudo isso anulou minhas intenções críticas. Quando dei por mim, ou por mim fora de mim, percebi que a arte é um milagre. O corpo da mulher, liberto do seu centro subjetivo, o corpo da mulher é também um milagre. Georgia é forte, de uma força estendida a um milímetro da aspereza dos fortes castigados pela vida; Georgia é orgulhosa na medida da sua força. Entretanto, ei-la vencida e dobrada pela fraqueza de toda mulher: a fraqueza entranhada no amor. Georgia ama e ao amar Stieglitz ela perde sua força, embora retenha seu orgulho. Sem forças para suportar o amor traído por Stieglitz, mas intransigente na fidelidade a seu orgulho, Georgia desaba. A dor do amor reveste-se de uma expressão tão dolorosa e sem palavras que se converte num mal orgânico. Georgia se dói e se sofre imobilizada na cama, sem forças sequer para traduzir em linha e luz sobre a tela a dor sem voz do amor traído.

As mulheres são loucas, dizia minha amiga que tanto roeu a corda do amor enlouquecido. Se Stieglitz revelou Georgia para si própria, Lúcio Bacamarte, neto renegado do personagem de Machado de Assis, revelou à minha amiga sua própria loucura, que é a loucura de toda mulher. Quando ama, a mulher transfigura a vida, reverte o círculo das estrelas e alastra o fogo da paixão no centro da floresta ardente. E assim, perdida de si própria, desavinda do seu centro, mesmo quando seja uma Georgia O`Keeffe, ela enlouquece como todas as loucas de amor internadas na Casa Verde de Lúcio Bacamarte.
Li em algum lugar, em algum livro, uma anedota atribuída a Gertrude Stein. Perguntaram-lhe qual a diferença entre a libido feminina e a masculina. Esta começa aqui, disse apontando a zona genital, e acaba em qualquer lugar; aquela começa em qualquer lugar e acaba aqui, concluiu apontando novamente a zona genital. Traduzindo de modo mais complicado, homem e mulher estão condenados à incompreensão amorosa, pois, enquanto a libido do primeiro é centrífuga, a da segunda é centrípeta. Há no filme uma cena que me parece ilustrar muito bem esta anedota. Georgia está no hospital sob os cuidados de um médico que é irmão de Stieglitz. Este vai ao encontro de Georgia, quando encontra o irmão no corredor. O irmão, que antes tanto o ajudou, acusa-o de ser cruel com Georgia e proíbe que a visite. Mais tarde autoriza a visita. Stieglitz entra no quarto e depara Georgia afundada numa depressão tão profunda que não tem forças nem para falar. Ele a ama profundamente, apesar de traí-la. No entanto, fala apenas, com franco entusiasmo, da exposição da obra de Georgia que planeja para sua galeria.
Voltando a Lúcio Bacamarte, as mulheres sofrem de uma loucura estranha à libido centrífuga do homem, estranha à sua sensibilidade difusa capaz de expressar seu amor à mulher paralisada num leito de hospital pela depressão, cujo culpado é ele próprio, falando não de amor, mas de negócios, de ambições profissionais, da pintura transposta para o código do mercado. Confesso duvidar de tudo isso que acabo de escrever, pois amei e sofri o amor por vias e códigos muito distintos. Se assim me contradigo, de outro lado não duvido de que a natureza e a cultura se conjugaram de modo muito confuso para juntar na mesma casa e na mesma cama seres tão irredutíveis nas linhas do amor ao qual fatalizadamente se abandonam. Como diz a canção de Dorival Caymmi, não tem solução.


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