Reflexão sobre a mulher de hoje

Mulher

Reflexões sobre a condição feminina


¿Encontre um tempo só para você, caminhe pelo menos três vezes na semana, malhe outras tantas e, para acalmar a mente, faça meditação¿. Além de cuidar dela e da família, a mulher moderna se dedica às mais diversas atividades fora de casa
Inês Detsi - especial para O POVO =06 Mar 2010 - 19h43min






fonte http://www.noolhar.com/opovo/vidaearte/960145.html


As mulheres que hoje participam da vida pública, na esfera política ou no mercado de trabalho, conquistaram muitas coisas. Deixaram de ser tuteladas pelos pais ou maridos. Ao sair do espaço doméstico, conheceram um outro mundo, que colocou em xeque suas potencialidades e comprovou seu mérito. Foram reconhecidas e valorizadas socialmente. Possuem mais autonomia financeira e mais liberdade para decidir sobre sua própria vida. Tornaram-se mulheres ``chefes``, em casa e na rua. Assumem a gestão do lar e a gerência das empresas. Estão em todo lugar: no comércio, nas indústrias, nos escritórios, nas instituições de ensino, nos hospitais, trabalhando, diligentes. Delas se diz que são ``poderosas``.
Mas é preciso refletir sobre o que falta e se esse espaço conquistado nos tem levado à emancipação. O ingresso das mulheres na vida pública trouxe uma carga maior de trabalho, chamada de ``dupla jornada`` & algumas mulheres brincam com o termo, considerando que esse ainda não é suficiente para descrever seu cotidiano. Além da casa, dos filhos e do marido, há a profissão e muitas vezes, paralelamente, algum curso, para o qual estudam na madrugada. A dupla jornada, portanto, permanece, apesar da luta das mulheres para que haja uma divisão mais justa do trabalho doméstico e da responsabilidade pelos filhos (e também pelos idosos, que geralmente ficam sob os seus cuidados).
Mas, se caso houvesse mais equidade na divisão do trabalho doméstico, teríamos alcançado nossa emancipação? Penso que não, pois continuamos submetidos (todos, homens e mulheres) a uma ordem social em que prevalece uma ética desumana, que é a ``lógica do mercado``. Trabalhamos mais intensamente que outrora e, apesar de mais treinados e capacitados para exercer uma atividade de trabalho, nos sentimos permanentemente ameaçados pelo desemprego. Somos quase que descartáveis. Fomos transformados em mercadorias semelhantes às que almejamos possuir.
Analisando o discurso da mídia, e mais especificamente, de revistas dirigidas ao público feminino, observei que o trabalho e a profissão aparecem como um atributo central da identidade feminina. As revistas da atualidade estão falando para as mulheres que trabalham no mercado e não mais para as mães e donas de casa. Mas o sentido atribuído ao trabalho é o de ser mais um meio para a realização de sonhos de consumo do que de gratificação pessoal.


Nas páginas de uma revista, encontro depoimentos de mulheres ``vitoriosas``, que hoje têm orgulho de sustentar a família. Falam do que conquistaram. Não por acaso, citam os bens que já puderam adquirir: um carro ``do ano``, um apartamento ``decorado`` e, para os filhos, ``viagem à Disney``. Algumas ``executivas`` fizeram de seus escritórios um segundo lar, onde possuem cama, para um descanso nos intervalos, e guarda-roupa, com marcas famosas de perfumes, acessórios e vestuário.
Além de muito trabalho, para fazer frente a um estilo de vida voltado para o consumismo, é preciso cuidar do corpo e da mente, pois sem estar com ``tudo em cima`` seremos carta fora do baralho. Em páginas e mais páginas das revistas ditas ``femininas``, nos deparamos com fórmulas e dicas para manter a juventude, a beleza do corpo e a paz interior.


``Você que acorda cedo, deixa os filhos na escola, enfrenta aquele trânsito até o escritório, onde permanece por horas a fio no computador, ao telefone ou em reuniões estressantes e que, ao voltar para casa tem de dar conta de tudo o que chamamos -lar-, saiba que não está sozinha, você é uma mulher moderna.``!


A mulher ``moderna``, segundo essas revistas, é inteligente, bela, sedutora, competente, preparada. Pode morar sozinha, se quiser, mas também deve casar e ter filhos, pois casamento e maternidade são instituições que continuam sendo valorizadas.
A esta mulher se pede: ``Encontre um tempo só para você, caminhe pelo menos três vezes na semana, malhe outras tantas e, para acalmar a mente, faça meditação... Cuidado com a saúde, se você sai de casa, para enfrentar um dia exaustivo de trabalho, levando na bolsa um -kit de sobrevivência-, preste atenção à sua coluna!... Alterne no seu dia a dia o tipo de sapato, usando sapatos com tamanhos variados de salto``... E, para facilitar a vida: ``não entulhe a casa com objetos que não têm mais utilidade... renove seu guarda-roupa a cada três meses etc., etc...``
As matérias da mídia destinadas às mulheres são de caráter prescritivo e se respaldam na ciência. Pesquisadores e especialistas de todas as áreas nos ensinam como devemos viver nosso cotidiano e de como conciliar, talvez, o inconciliável, em razão do sistema social no qual vivemos.


E, mergulhadas nessa realidade paradoxal, as mulheres procuram saídas, que geralmente não vão além do âmbito de sua vida pessoal e que não modificam uma situação que é mais abrangente e profunda. Por trás de dilemas aparentemente individuais encontramos fenômenos sociais como o capitalismo e a ``sociedade de consumo``, o processo de Globalização, as políticas neoliberais, o desemprego estrutural, além de outras questões mais específicas ao mundo feminino e que denominamos de questões de ``gênero``, que são responsáveis pela forma como as relações entre homens e mulheres estão estruturadas, pela hierarquia que se estabelece entre os gêneros e pelos valores que sustentam essas hierarquias.


Ao buscar um ideal de feminilidade proposto pelos diversos discursos sociais, estaremos alimentando uma sociedade individualista, pouco preocupada com questões que envolvem a coletividade e o meio ambiente e que instiga a uma forma de agir pautada na mesma lógica que orienta o mundo dos negócios.


>> INÊS DETSI é doutora em Sociologia, professora e pesquisadora do Curso de Ciências Sociais da Universidade de Fortaleza & Unifor. fonte: http://www.noolhar.com/opovo/vidaearte/960145.html

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Christina Ricci posa sensual e fala sobre anorexia

Naomi Osaka se torna a mulher mais bem paga da Adidas

Deusas calipígias e a influência das nádegas na história da humanidade